quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Ao Senhor Ex-Colégio

Hoje recebi uma ligação inusitada. Um amigo do colégio, pensando em fazer GV, após anos de outra faculdade. O que “me acalma, me acolhe alma”, afinal, não sou só eu que ligo pros amigos do colégio querendo saber se a faculdade deles é mais legal do que a minha. Meu amigo precisa de janelas e pessoas. Eu precisava de janelas e números.

Ao nosso ex-colégio, deixo minhas reclamações. Vocês formataram pessoas brilhantes, com opiniões únicas, comportamentos impecáveis, escrita correta, raciocínio rápido. Vocês fizeram quase-homens e quase-mulheres que funcionam como máquinas quando estão determinados a alcançar algum resultado. São destemidos, são insistentes, são eficientes, e, em 85% dos casos (número que eu chutei, mas deve ser por aí), tem sucesso quando saem do colégio. Porém, vocês não se preocuparam em ensinar esses quase-heróis a encontrarem o que eles realmente querem. Eles tem todo o material, e mesmo assim, não conseguem fazer a obra. Largam pela metade.

Hoje eu vi que TODOS, TODOS nós da turma de 2007 estamos sujeitos a dúvidas e angústias existenciais. Também me lembrei de que nós, não todos, apenas os melhores, conseguimos passar em todas as provas que prestamos. E também me lembrei de que isso não foi e não é suficiente para nos fazer felizes. Por isso, senhor ex-colégio, eu digo e repito, e acredito que outros também o fariam, nós não queremos voltar para agradecê-los. Vocês nos deram o que poderia ser conquistado em um ano ou dois, e nunca nos ofereceram a chance de termos aquilo que nunca pode ser perdido: um sonho verdadeiro, concreto; uma certeza.

A gente hoje sabe que tudo aquilo que o pessoal dos outros senhores ex-colégios não fez nos anos do ensino médio não foi um tempo totalmente perdido. O vestibular é uma prova estúpida e nenhum adolescente tem a obrigação de falar sobre a “Era dos Extremos” com grande propriedade. Porém, o tempo que nós gastamos fazendo ciclo trigonométrico, esse sim foi perdido. E foi inútil, lembro das provas do nosso ano, nem passaram perto da trigonometria que nos foi exigida. Nós poderíamos ter tido apoio das mentes brilhantes dos professores do senhor ex-colégio. Nós poderíamos ter discutido mais entre nós, nós poderíamos tudo. Mas nós estávamos fazendo relatórios de Química!

Senhor ex-colégio, aqui fica meu recado: o vestibular tem todo ano, inevitavelmente. Porém, a angústia e a dúvida que me acompanham quando eu me deito não deveriam fazê-lo todos os dias. E é por isso que nem eu, e nem muitos outros, iremos perdoá-lo. Talvez reconhecer, aceitar, mas nunca perdoar. Nós estamos mais atrás de todos os outros do que jamais estivemos. Mas isso não é mais problema de vocês, não é mesmo?

Ah, senhor ex-colégio. Sinto nojo do senhor, hoje mais do que nunca.

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