sábado, 14 de agosto de 2010

adultos perdidos

Eu e Fê fomos à Bienal. Depois de ouvir o anúncio de uma criança perdida, eu perguntei:
- Fê, vamos nos encontrar no "Espaço das Crianças Perdidas" caso a gente se desencontre?
- Tudo bem, bem.
Mas então eu lembrei:
- Fê, acho que a gente não vai precisar. Nós não somos crianças, temos celular, qualquer coisa a gente se liga.
- Não, Carlos, nós não vamos nos perder porque somos adultos.

Mas por que mesmo assim eu sempre me perco?

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

inocência nativa

No começo eu não queria ir. Não sei porque, não faço a mínima ideia mesmo, mas lugares cheios demais com pessoas importantes demais que geralmente se acham demais sempre me incomodou. Talvez era eu quem me achava demais para ficar perto deles e não queria ir. Acho que na verdade era isso mesmo. Mas eu fui. Coloquei meu iPod e fui à noite de autógrafos da Livraria Cultura.


Comprei meu livrinho sem muita esperança para autógrafos. Se eu não tivesse sido tão besta, estaria na fila há um bom tempo. Mas fiquei, já estava lá mesmo. Estão um senhor com pinta de simpático, um chapéu engraçado e uma bengala me pediu para guardar o lugar dele por um minutinho. Confesso que simpatizei com a bengala, guardei. Ele voltou e começou a tagarelar. Estava na fila, não podia sair para dar uma volta e escutei. Comi uns canapés de ervas finas; ele comeu o de ervas finas, de catupiry, de peito de peru e um outro roxo que eu não distingui. Tomei água; ele bebeu dois copos de água, um de guaraná, um de suco de maracujá e um de goiaba. Não peguei tudo o que ele disse. Mas uma hora eu escutei: "A gente acaba vindo para a Livraria sem saber, só para resolver as nossas dúvidas sem nem as escutá-las. Muitas vezes a gente nem sabe que as tem". Foi aí que eu me dei conta que - sem querer, como quem não quer nada e está só de passagem - só nos últimos dez dias eu devo ter ido umas quatro vezes à Livraria. Estava com muitas dúvidas. Ainda estou com outras tantas, mas o labirinto sempre me acalmou. Não sei se aquele senhor era um metido a sabe tudo ou se era um sabe tudo, não o achei tão simpático até o fim; mas fiz questão de me despedir do George, o Curioso. Ele dizia que era igual ao George Orwell.

No final de tudo, eu fui o último a pegar algum autógrafo com a fila inteira se fechando bem atrás de mim. E só sobramos nós, eu e aquela inocência verde que parecia relutar em ficar sentada.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

café e chocolate, canela e baunilha

De manhã o banho estava tão quente, o dia parecia que seria bom. Quando desliguei o chuveiro, não parecia mais. Estava frio, bem frio.

Mas sabe? Não foi tão difícil assim. Poucos minutos depois, eu já estava dando muitas risadas, com cafeína demais no sangue e - com certeza - muita glicose também. Nós estávamos falando dos nosso problemas: de ligações inusitadas, de um "sinto sua falta", de meios passo para trás. Mas nada nos preocupava tanto assim. Nós, com nossos juízos loucos, ríamos bem alto sendo que nem eram oito horas da manhã ainda.

Oi, viu, me dê me suco para viagem, viu?

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Ao Senhor Ex-Colégio

Hoje recebi uma ligação inusitada. Um amigo do colégio, pensando em fazer GV, após anos de outra faculdade. O que “me acalma, me acolhe alma”, afinal, não sou só eu que ligo pros amigos do colégio querendo saber se a faculdade deles é mais legal do que a minha. Meu amigo precisa de janelas e pessoas. Eu precisava de janelas e números.

Ao nosso ex-colégio, deixo minhas reclamações. Vocês formataram pessoas brilhantes, com opiniões únicas, comportamentos impecáveis, escrita correta, raciocínio rápido. Vocês fizeram quase-homens e quase-mulheres que funcionam como máquinas quando estão determinados a alcançar algum resultado. São destemidos, são insistentes, são eficientes, e, em 85% dos casos (número que eu chutei, mas deve ser por aí), tem sucesso quando saem do colégio. Porém, vocês não se preocuparam em ensinar esses quase-heróis a encontrarem o que eles realmente querem. Eles tem todo o material, e mesmo assim, não conseguem fazer a obra. Largam pela metade.

Hoje eu vi que TODOS, TODOS nós da turma de 2007 estamos sujeitos a dúvidas e angústias existenciais. Também me lembrei de que nós, não todos, apenas os melhores, conseguimos passar em todas as provas que prestamos. E também me lembrei de que isso não foi e não é suficiente para nos fazer felizes. Por isso, senhor ex-colégio, eu digo e repito, e acredito que outros também o fariam, nós não queremos voltar para agradecê-los. Vocês nos deram o que poderia ser conquistado em um ano ou dois, e nunca nos ofereceram a chance de termos aquilo que nunca pode ser perdido: um sonho verdadeiro, concreto; uma certeza.

A gente hoje sabe que tudo aquilo que o pessoal dos outros senhores ex-colégios não fez nos anos do ensino médio não foi um tempo totalmente perdido. O vestibular é uma prova estúpida e nenhum adolescente tem a obrigação de falar sobre a “Era dos Extremos” com grande propriedade. Porém, o tempo que nós gastamos fazendo ciclo trigonométrico, esse sim foi perdido. E foi inútil, lembro das provas do nosso ano, nem passaram perto da trigonometria que nos foi exigida. Nós poderíamos ter tido apoio das mentes brilhantes dos professores do senhor ex-colégio. Nós poderíamos ter discutido mais entre nós, nós poderíamos tudo. Mas nós estávamos fazendo relatórios de Química!

Senhor ex-colégio, aqui fica meu recado: o vestibular tem todo ano, inevitavelmente. Porém, a angústia e a dúvida que me acompanham quando eu me deito não deveriam fazê-lo todos os dias. E é por isso que nem eu, e nem muitos outros, iremos perdoá-lo. Talvez reconhecer, aceitar, mas nunca perdoar. Nós estamos mais atrás de todos os outros do que jamais estivemos. Mas isso não é mais problema de vocês, não é mesmo?

Ah, senhor ex-colégio. Sinto nojo do senhor, hoje mais do que nunca.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

pão de ló

Era uma chuvinha rala que não assustava ninguém. Para mim ,significava um começo de semestre que não nascia com a cara boa. Então as gotinhas fracas viraram suco de laranja, pão de queijo, pão na chapa e um cheesecake. Claro, tudo isso com uma boa companhia. Depois encontrei velhos conhecidos que estava rezando, conhecidos que estava gritando numa salinha. Um já xingou o outro. Uma já pediu dinheiro emprestado para o outro. E o semestre ainda nem começou. Minha aula é só às treze horas.

Ninguém me contou como vai ser o meu semestre. Não fui numa vidente para saber se ele vai ser bom ou ruim. Mas acho que vai ser como esse dia: com pingos de chuva, mas cheios de sorriso. De quem depende tudo isso? Prazer.

domingo, 1 de agosto de 2010

Um cacho de banana na família dos porquinhos

Acordei segurando um Homem-Aranha. Sem cabeça. É, o Homem-Aranha estava sem cabeça. Já estava achando que aquilo era um sonho, mas estava sentindo o cheiro de cigarro na janela ao lado e a voz fina de criança de seis anos. Levantei daquela hora de 'quem ainda acordou e não sabe onde está' e comecei a me trocar, sem o Homem-Aranha. Arrumei a tevê para o meu avô e fui com meu priminho comprar pão, a pedido da minha avó que estava passando minhas roupas, sem ninguém pedir, ela só queria fazer alguma coisa para me ajudar. Ninguém que me via na fila do caixa sabia que eu havia encontrado alguma coisa, mas eu estava bem feliz, só olhando meu priminho brincar e adimirar as faíscas da construção em frente. Aquela era a famíla que eu vi o mês que passou inteiro, mas ela nunca era demais. Era grande, mas ao mesmo tempo nunca me enchia. Meu priminho tinha passado da fase dos porques (ou ainda nem tinha chegado), mas gostada de me mostrar tudo que via e me contava todas as graças que ele achava. Meu avô era sempre calado, nunca falava; mas - uma vez ou outra - eu ouvia um: "Só você mesmo para aguentar tudo isso", direcionado a mim que ele achava que eu não escutaria. Minha avó sempre queria arrumar um agrado para todos, sem se importar com esforço algum que ela fizesse. Minha tia nunca ligava muito para nada, ela só queria ser feliz, feliz mesmo, sem muitas preocupações e de um jeito que não atrapalha ninguém. Já meu tio, era todo atrapalhado. Eles chegaram cheios de mala, cheios de novidades e muita vontade de comprar. Chegaram com um cacho de banana ouro, "uma delícia que encontramos na estrada". Depois que eu apareci com o pão quente e o jornal do dia, sem que eu percebesse, eles foram embora. Sumiram mais rápido do que café em xícara de fumante.

Eu já fiquei várias vezes aqui, sozinho no apartamento. Mas, de uma hora para outra, uma cabeça de Homem-Aranha no chão eu sabia de um jeito só meu que ainda poderia enchê-lo. Eu achava que com aquele texto tinha me despedido das férias. Contudo, a tranquilidade que aquele cacho de banana me proporcionou, me deixa tranquilo para mais um semestre.