segunda-feira, 19 de março de 2012

Porque eu ainda faço GV

Acredite se quiser, eu sou uma GVniana que nunca “sempre quis GV”. Sendo absolutamente sincera, dos 4 aos 8 anos eu queria ser patinadora do Carrefour, e dos 8 aos 15 eu quis ser praticamente tudo que você possa imaginar: desde astronauta até professora de literatura em escola pública. Hoje, com 22 anos, eu acho que eu quero ser economista. Mas com 20 eu queria ser diplomata, e com 19 eu queria ter uma ONG. “Ah tá, então você fez GV porque você é daquelas pessoas que escolheu administração porque não fazia a menor ideia do que queria, e você ainda faz GV porque precisa do diploma”. Sim, eu escolhi administração porque eu tinha que acertar, caso contrário meus pais começariam a ficar bravos, mas não, eu não continuo na GV unicamente pelo diploma - preparem as bolinhas de papel, tirem as crianças da sala! A próxima frase é forte e vai ser julgada. Eu gosto da GV, e é por isso que eu pretendo levar esse nome no meu currículo.

Sim, gente, eu gosto da GV. E vou dar meus motivos. Caso te interesse saber os motivos pelos quais alguém pode gostar de algo tão indigesto, sugiro que continue a leitura. Caso te pareça que isso é apenas uma nerd falando, também é verdade, então pode ir embora em paz. Mas vamos ao que interessa: quem sabe quantos alunos estudam na USP? Segundo a wikipedia, uns 50 mil (aceito números melhores). Na graduação, somente na EAESP, a conta é fácil: 40 x 4 = 160 por semestre (em média); 160 x 8 = 1280. Mais a turma nova de AP, uns 1330. Mais o pessoal que não se forma em 8, uns 1400. Pois bem, a sua importância na GV é próxima de 1/1400. A importância de um aluno da USP é aproximadamente 1/50000. Já parou para pensar que o seu poder de mudança é minimamente relevante comparado ao poder de mudança de alunos em outras instituições de ensino importantes para o país? E mesmo assim, você continua gritando para a sua mãe que a sua atividade monitorada é inútil, continua chorando para o seu namorado porque a sua vida é muito corrida, afinal você estuda muita coisa inútil e não aprende nada. O menino que saiu da Poli e virou história provavelmente não podia fazer nada pelas pessoas que se sentem como ele, e que colam desesperadamente porque já foram sugadas pela loucura “provas + notas + competição”. Você pode.

“CLARO QUE EU NÃO POSSO! JÁ TENTOU FALAR COM UM PROFESSOR, PEDIR PARA ELE ADIAR UM TRABALHO, FALAR QUE ESTÁ SOBRECARREGADO?”. Já, eu já tentei e já não fui ouvida. Minha vez de perguntar: você já tentou falar com alguém que não o seu professor? Com um coordenador, com um tutor? Suponho que sim, e suponho que também não adiantou nada. Assim como eles já te mandaram desligar o computador, parar de mandar mensagem no BBM e prestar 5 minutos de atenção na aula que eles preparam. Eles também te pediram para que você lesse o texto, você leu? Hm... Eu também não li, relaxa. Ponto de parada importante: se você chegou até aqui, ótimo. Mas eu preciso que daqui para frente você só continue se acreditar em duas coisas: 1) generalizar é burrice; 2) mudanças são possíveis. Caso contrário, você vai perder seu tempo e dizer que eu sou mais uma coitada que quer salvar o mundo. Pode até ser, mas isso fica para outra hora.

Em dezembro do ano passado, fui convidada pela Coordenadoria de Graduação para um projeto que não tem nome. Um projeto que quer fazer uma mudança grande na GV. Eu, mais alguns alunos e alguns professores queremos que evitar que o próximo manifesto seja “porque eu desisti da GV”. Afinal, ela faz parte da nossa vida como nossa faculdade, como nosso trabalho, como lugar que muitos passam a maior parte do dia. E sabemos que ela vai mal. Mas há espaço para mudança, e isso me faz amar a GV. Claro que esse espaço é pequeno, principalmente porque somos poucos. Mas queremos contar a vocês que este espaço está aberto e que precisamos de pessoas que queiram utilizá-lo da melhor forma possível.

Talvez seja impossível mudar a GV inteira, até porque a GV não é a Disney, a GV não é um retiro espiritual na Tailândia. A GV tem sido a GV nos últimos 50 anos, e queremos que ela continue sendo a GV: pequena, apertada, um pouco massacrante. Queremos apenas que ela volte a ser instigante, e que aquela camiseta do “Orgulho em Ser GV” não seja só uma troca de roupa de Economíadas.

Eu demorei 3 anos para descobrir que a GV não tem dois lados: o bem e o mal, os alunos e os professores. O nome da GV foi feito por todos que por ela passaram, e está nas nossas mãos. Isso me faz gostar da GV, esse feeling que o projeto sem nome me deu de que na GV eu consigo sim fazer algo diferente, algo grande. Eu teria o mesmo sentimento em outra instituição – será que nela eu teria essa chance? Você com certeza compartilhou no seu facebook que a GV é um dos principais “think-thanks” do mundo. Você ao menos sabe como isso se dá na sua rotina? Sabe se algum professor seu está fazendo uma pesquisa animal, que te interessa? Ou se ele tem uma carreira muito parecida com a que você almeja? Mantendo a regra do “generalizar é burrice”, sei que algumas pessoas responderam “sim” às últimas perguntas, mas também sei que tem muita gente que não tem paciência mais para ler um texto desse tamanho todo e quer que eu frite por ter começado essa discussão.

Gente, a GV é um espaço de troca e não um campo de guerra. A gente já sabe que você odeia a sua vida, que você odeia estatística, que você odeia o blackberry dos seus alunos, que você odeia o facebook, que você acha que atividade monitorada é uma palhaçada, e que você faz estágio e quer que se dane. Isso tudo a gente já sabe. Queremos convidar vocês para nos contarem o que não sabemos: o que vocês estão dispostos a fazer para termos uma GV melhor? O que vocês precisam que mude para que vocês gostem da GV? Lembrando que a GV é a GV – sugestões de cunho radical, do tipo “coloquem um teleférico”, serão devidamente encaminhadas ao Playcenter.

Relembrando um último detalhe: se você chegou até aqui, você acredita em mudanças. Eu sei que isso parece uma loucura, mas seria MUITO legal se conseguíssemos gerar algo novo. Por isso nós, já envolvidos no projeto que não tem nome, por meio desse texto, convidamos vocês a gastarem alguns minutos conhecendo o que já discutimos, e quais são algumas das soluções para problemas levantados por alunos e professores (tanto separadamente, como de maneira conjunta). Somos aproximadamente 10, mas sabemos que há muito mais pessoas que vivem os mesmos questionamentos, que se importam e que estão dispostas a investir tempo em tentativas de mudanças. Venha reclamar da sua vida para as pessoas certas, que tal assim?

Por Fernanda Lima

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Daqui a menos de 24 horas

No dia 10/11/2007, eu sai do cursinho na hora do almoço. Era um sábado de manhã, tinha revisão de biologia. Ano de vestibular, e eu tinha algumas tradições. Entre elas, o costume de ler os livros em português. Então eu me blindei, e esperei até aquele dia. O dia em que eles, laranjinhas e lindos como só eles, invadiram as livrarias.
Tinha uma Nobel aqui do lado de casa, e eu reservei o livro lá. Era no caminho do ponto pra casa, tudo calculado. Ouvindo iPod e lendo a apostila no caminho, no sábado não tinha muito trânsito, então cheguei logo. Peguei o livro. Cheguei em casa.
"Pai, eu vou ler o último Harry Potter. Então qualquer eu tô aqui, mas eu não vou falar muito, tá?"
"Você vai ler isso aí tudo hoje?"
"Não sei, pai, mas eu preciso saber o que acontece. Eu preciso."
Sentei pra ler depois do almoço, umas 13. Eu acabei o livro só a meia noite. Mas eu acabei. Tive de fazer uma pausa e ligar, ligar pra quem eu podia falar qualquer coisa, simplesmente falar, pra processar as informações. Relíquias da Morte me engoliu em poucas horas. Quando eu terminei, anotei a data, fiz a minha frase. E achava tão engraçado pensar que o fim do Harry era ali, uma semana antes do meu primeiro vestibular.
Crescer junto.
Não de criança, mas de crescer mesmo. Harry Potter é responsável por 100% de quem eu sou hoje, afinal, se não fosse essa história, muitas tantas coisas não teriam sido. De todos os sentimentos intensos que eu já senti, Harry me proporcionou o maior. O amor. Aos poucos, tanta coisa surgiu e destruiu tanta coisa. Os desdobramentos de Harry na minha vida são inexplicáveis. Eu poderia odiar essa história, mas aí entra o fato: Harry é tudo que se manteve intacto desde a primeira vez em que eu li a Pedra Filosofal. Sempre foi a porta pro meu mundo paralelo, até quando esse mundo paralelo não era ficção.
Pois bem, voltando pro Harry, desde aquele 10/11, mais de 3 anos atrás, eu já sabia que aquele não seria o fim. Muitos filmes por vir ainda, e eles ainda surpreenderam dividindo Relíquias em 2.
Li os livros tantas vezes depois daquela data.
E aí amanhã, amanhã talvez seja o começo do fim. O começo do fim dessa era, marcada por essa história especial. Porque vão acabar as notícias, as fotos, os surtos por trailers. Quando eu li pela primeira vez a dedicação da JKR em Relíquias, eu achei muito bonita. Mas talvez hoje, algumas horas antes de sentar pra ver o começo do fim, eu tenha realmente entendido o quão especial foi dedicar o melhor dos livros pra nós, que acompanhamos Harry até o fim.
Nunca me vesti de Hermione (já quis), nunca fui de varinha para a pré-estréia, minha mãe nunca me deixou ir na pré-estréia! Meu vício sempre foi enorme. Tive todos os albuns, enchi meu quarto de figurinhas, li fics, escrevi fics, fiz parte de fórum, entro todo santo dia, religiosamente, no Potterish, tenho calendários, bonecos, todos os livros relacionados. Basicamente, fiz tudo que um fã deveria fazer nesses 10 anos em que a história esteve na minha vida. Vou conhecer o Wizarding World ano que vem, e choro vendo as fotos, e tenho certeza que vai ser uma emoção ainda maior do que olhar pro meu querido castelo da Cinderela, não por nada, mas porque esse vício eu criei sozinha. Eu nasci viciada em Disney, herdei da mamãe, mas Harry eu conheci e me apaixonei. É a coisa mais minha (todos os milhares de fãs dizem isso, relaxem que eu sei) que eu tenho. Minha paixão, minhas idéias, minhas teorias, minhas frases favoritas.
A geração Harry Potter existe, não é só a época fazendo graça.
Aí amanhã a gente vai lá ver esse filme que tão dizendo que vai agradar os fãs que leram os livros. Warner, David, enfim, todos vocês: peço, de todo o meu coração, que dessa vez vocês não me decepcionem. Eu nunca coloquei tanta expectativa em nenhum dos filmes, pois sempre teve uma parte de mim meio avessa a essa coisa de filmes. Mas ela foi superada.
O Dan, a Emma, o Rupert, o Tom, a Bonnie, a Helena, o Alan, todos me conquistaram aos poucos. Não sempre pela atuação, mas por conseguirem demonstrar o amor que Harry, Ron e Hermione merecem. E por serem sempre tão legais com os fãs. Reconheço que eles são mesmo.
Amanhã eu vou ser só mais uma vendo o filme. Chorando quando a Hermione apagar a memória de seus pais, chorando quando aquela música começar, rindo de satisfação ao ouvir Rony dizer que eles não sobreviveriam nem dois dias sem a Hermione, nervosa com a invasão no Ministério, aflita pelo surto do Ron...
Mas mais do que qualquer coisa, qualquer livro ou mania de "saber muitas coisas", o que sempre fez da Hermione a minha favorita é o fato de que ela tem dois amigos homens. Os melhores, claro. Ela é amiga da Gina, mas entende que não é a mesma coisa? Enfim, muitas pessoas entraram e saíram da minha vida, mas eu acho que posso dizer, tranquilamente, que eu sei como é viver o tempo todo entre meninos. E sei como eles podem te surpreender. É por isso que, eu sei que amanhã, a cena que mais vai arrancar lágrimas minhas vai ser a dança do Harry com a Hermione. Porque todo mundo merece ter um Harry, que te chama pra dançar quando tudo tá dando errado. E porque ver tal atitude da parte de meninos, que parecem que passam o dia todo te infernizando, é simplesmente especial.
No fundo, muito do que vai me fazer chorar amanhã é o fato de ter pessoas que se provaram muito especiais para mim assistindo o filme comigo. Que passaram a semana inteira falando do filme comigo, combinando o dia de amanhã. Pessoas que entenderam o quanto o dia de amanhã é importante pra mim, e mesmo que não seja igual, elas estarão lá, como raramente outras pessoas que passaram pela minha vida na mesma condição estiveram. Isso me faz simplesmente muito feliz. É quase como uma dança na barraca.
Pois bem, essa é minha consideração sobre o tema. Consideração de alguém que, desde segunda, não consegue fazer nada direito, pensando no dia de amanhã. Coisa de gente que acompanhou Harry até o fim.
Desejo sinceramente que todos nós, fãs de verdade, que leram, choraram, riram, e construiram uma parte da vida em cima dessa história, tenhamos o prazer de assistir ao filme mais incrível da série até então.
Afinal, pra felicidade geral da nação potteriana, AINDA TEM A PARTE II!
 
Por Fê Lima

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Banho de Espuma, Conversas, Casinhas

Como disse ele, não há problema nenhum em estar em paz às vezes. Num semestre como este, estar em paz é esquisito. Mas a paz vem, e, diferentemente do que dizem por aí, ela não chega pacífica. Parece que se forma uma situação, as coisas vão acontecendo aos poucos: saí pulando e gritando do banho de espuma, e é claro que eu escorreguei. Meu tênis tinha MUITA espuma, MUITO sabão, MUITA água. Mas a alegria continuava lá. Eu cheguei no alojamento, tirei o tênis, tomei banho e coloquei meias secas. Cara, eu sinceramente acho que todo mundo devia colocar meias secas quando as coisas se complicam.

Depois da bagunça, as meias secas fizeram do cansaço algo ainda mais agradável. Viver com o corpo cansado é totalmente aceitável, certo? Faz a gente dormir melhor.

Viver com a cabeça cheia é opção, é a minha opção.

Mas cansar o corpo é necessário. Ter cinco minutos do seu dia para colocar meias secas é necessário.

E então eu disse pra ele, porque eu sabia que nos últimos tempos eu estava pesando. Disse para ele que eu quero que todo dia seja Sábado à tarde saindo do Francês, que todo dia alguém ria da gente no farol. Que todo dia a gente tome amolecedor de cutículas da Revlon.

Eu não sei quanto tempo demora para construir um vínculo, eu não sei quanto tempo demora para construir uma carreira, eu não sei quanto tempo demora para construir um amor, mas eu sei que a felicidade não se constrói: um dia você chega do Pilates e sente que ela tá aí, do seu lado. Achando graça do seu amolecedor de cutículas, te chamando de negra, te chamando de panda, fazendo sucesso com você, segurando na sua mão, fazendo dedinhos, levantando seu ego.

Quando elas acham que estão fazendo o mal, elas estão fazendo o bem. Algumas pessoas tem isso, tem um papel diferente. Enfim, boa tarde pra você que descobriu que sua vida é mais gostosa do que um cupcake de MM’s.

Por Fê Lima

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

o jeito que agimos: escolhemos

Foi isso. Depois de uma noite sem dormir, um dia cheio de palmas.
Não sei se foi fácil ou difícil, simplesmente foi; por mais complexo que isso possa parecer. Acordei cedo, preocupado. Mas depois que aconteceu, a felicidade era tanta, que nenhuma preocupação podia ser lembrada. Eram 6h30 da manhã, e minha única companhia para esse dia que durou mais do 24h era um café grande. Listas estavam sendo montadas, panfletos com figuras da revolução chinesa estavam sendo distribuídos, estratégias eram armadas e cenários eram planejados. Parecia mesmo uma guerra. Eu não tinha ideia do tamanho de tudo isso, acho que ainda não tenho. Meu coração ainda bate mais cada vez que eu lembro que aconteceu. Não imagino quantos alunos tinham no terceiro andar. Eles preenchiam o corredor, as escadas e todas as saídas possíveis. Chegar ao elevador era difícil. Mas como a própria diretora havia dito, a manifestação era pacífica. Terceiro andar, era lá que tudo seria resolvido, em duas horas. 11h, começa a reunião, tensa. Uma reunião que para muitos era normal como todas as outras. Uma reunião que a maioria dos alunos quase não tinha informação e que muitos, há pouco tempo atrás, nem sabiam que existia. Os assuntos eram passados, e a cada página virada, a última pauta - a nossa pauta - chegava cada vez mais próxima. Até que chegou. Uma apresentação dos fatos, pontos levantados, assuntos discutidos. Início da votação: 12 a 1 a favor do direito de escolha dos alunos. Era uma vitória, não só dos alunos, não apenas da faculdade, mas da vontade de escolher o que fazer. Ainda não tinha acabado. Abrir a porta de vidro e ver o sorriso de todos aqueles alunos, por mais clichê que possa parecer, deu significado àquela vitória. Os alunos estavam felizes, me cumprimentavam, alguém que eles nem sabiam o nome direito, mas que tinha deixado eles felizes e era isso que importava.

Depois disso, a gente até passa a desconfiar que o inacreditável não é impossível.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

minha sala revolucionária

Eu só queria agradecer, para quem quisesse ouvir. Essas semanas têm sido um pouco difíceis por vários motivos. Mas sabe, eles me lembraram a cada momento nessa semana, a cada momento que eu ia suspirar de cansado, de porque eles tinham me escolhido. Eles me lembravam de como eles confiavam em mim e me aceitavam. Os comentários às vezes eram suspiros, mas eu ouvia, de um jeito ou de outro. Eram elogios, eram falas, era invejinha, era fé em mim. Amanhã eu não sei no que vai dar (que já é quase hoje). Mas é novo. É movimento. É vontade de fazer acontecer. Se eles confiam em mim - e quando eu digo eles, não estou falando em vários alunos que assinaram um papel, estou falando na minha sala, que eu 'cresci' nesses últimos dois anos - então eu não posso me dar ao luxo de não confiar em mim. J'adore la révolution!

sábado, 14 de agosto de 2010

adultos perdidos

Eu e Fê fomos à Bienal. Depois de ouvir o anúncio de uma criança perdida, eu perguntei:
- Fê, vamos nos encontrar no "Espaço das Crianças Perdidas" caso a gente se desencontre?
- Tudo bem, bem.
Mas então eu lembrei:
- Fê, acho que a gente não vai precisar. Nós não somos crianças, temos celular, qualquer coisa a gente se liga.
- Não, Carlos, nós não vamos nos perder porque somos adultos.

Mas por que mesmo assim eu sempre me perco?

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

inocência nativa

No começo eu não queria ir. Não sei porque, não faço a mínima ideia mesmo, mas lugares cheios demais com pessoas importantes demais que geralmente se acham demais sempre me incomodou. Talvez era eu quem me achava demais para ficar perto deles e não queria ir. Acho que na verdade era isso mesmo. Mas eu fui. Coloquei meu iPod e fui à noite de autógrafos da Livraria Cultura.


Comprei meu livrinho sem muita esperança para autógrafos. Se eu não tivesse sido tão besta, estaria na fila há um bom tempo. Mas fiquei, já estava lá mesmo. Estão um senhor com pinta de simpático, um chapéu engraçado e uma bengala me pediu para guardar o lugar dele por um minutinho. Confesso que simpatizei com a bengala, guardei. Ele voltou e começou a tagarelar. Estava na fila, não podia sair para dar uma volta e escutei. Comi uns canapés de ervas finas; ele comeu o de ervas finas, de catupiry, de peito de peru e um outro roxo que eu não distingui. Tomei água; ele bebeu dois copos de água, um de guaraná, um de suco de maracujá e um de goiaba. Não peguei tudo o que ele disse. Mas uma hora eu escutei: "A gente acaba vindo para a Livraria sem saber, só para resolver as nossas dúvidas sem nem as escutá-las. Muitas vezes a gente nem sabe que as tem". Foi aí que eu me dei conta que - sem querer, como quem não quer nada e está só de passagem - só nos últimos dez dias eu devo ter ido umas quatro vezes à Livraria. Estava com muitas dúvidas. Ainda estou com outras tantas, mas o labirinto sempre me acalmou. Não sei se aquele senhor era um metido a sabe tudo ou se era um sabe tudo, não o achei tão simpático até o fim; mas fiz questão de me despedir do George, o Curioso. Ele dizia que era igual ao George Orwell.

No final de tudo, eu fui o último a pegar algum autógrafo com a fila inteira se fechando bem atrás de mim. E só sobramos nós, eu e aquela inocência verde que parecia relutar em ficar sentada.